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As lições que os parentes do SARS-CoV-2 nos dão: a imunidade duradoura é pouco provável

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Notícias pouco reconfortantes para aqueles que já passaram pela experiência de estarem infectados pela COVID-19, mas que se curaram: um estudo recente publicado por pesquisadores holandeses analisou a frequência de reinfecção de 10 indivíduos ao longo de 35 anos por quatro vírus diferentes, todos da família dos coronavírus, e observou uma alta taxa de reinfecção entre os participantes, com os níveis de anticorpos contra os vírus decaindo rapidamente após as infecções. Todos os vírus estudados causam o resfriado comum em humanos, que também é causado por vírus de outras famílias virais, como os rhinovirus, adenovirus e outras. O estudo foi lançado como uma pré-impressão no servidor de pré-impressões científicas MedRxiv em 18 de maio deste ano (veja aqui).


Para esse estudo, eles monitoraram os níveis de anticorpos de cada indivíduo para cada um dos 4 vírus a cada 3 ou 6 meses, durante os anos de 1985 até 2020. A partir dessas medições, eles determinaram a) os níveis de anticorpos após infecção por qualquer um dos quatro coronavírus humanos sazonais; e b) o período de tempo após o qual podem ocorrer reinfecções pelo mesmo vírus. Os pesquisadores consideraram como um novo episódio de reinfecção toda vez que os níveis de anticorpos contra determinado vírus estivessem maiores em relação à medição anterior. O que eles descobriram foi uma duração alarmantemente curta da imunidade protetora aos coronavírus, com os níveis de anticorpos produzidos contra os vírus caindo drasticamente na maioria dos pacientes após seis meses. Na prática, esses níveis não sustentados de imunidade se traduziram em reinfecções frequentes partindo de 12 ou mais meses após a infecção e, em casos raros, mesmo após apenas 6 meses da infecção anterior.

Essa descoberta é preocupante, embora não seja nova, pois já se sabe que vários outros vírus que causam o resfriado comum são débeis em gerar respostas imunes adaptativas fortes com memória imunológica duradoura. Isso, é claro, está associado à baixa severidade dessas infecções, que não demandam muito mais do que a resposta imune inata local para serem controladas. No outro extremo do espectro, temos vírus que causam infecções graves, como o da varíola (já erradicada) e o do sarampo, para os quais ter tido a infecção ou ter tomado a vacina gera altos níveis de anticorpos e linfócitos de memória que se mantêm suficientemente altos para proteger o indivíduo por toda a vida.

Algumas questões que devem estar vindo à mente do atormentado leitor, ao ler essas linhas: então isso quer dizer que quem tiver COVID-19 leve não poderá suspirar aliviado de já ter pego a infecção e sobrevivido à pandemia? A minha resposta: não, elas não poderão suspirar aliviadas. Essa resposta vem com algumas ponderações. Se você teve COVID-19 leve e testou positivo para a IgG (anticorpo associado à memória imunológica contra o vírus) no teste sorológico, deve estar com algum grau de proteção; provavelmente, estará protegido durante alguns meses mas, possivelmente, não mais do que isso. Caso você tenha testado positivo para COVID-19 pelo teste de RT-PCR (que detecta o RNA viral) mas seu teste sorológico deu negativo (está acontecendo em vários casos em que famílias inteiras de infectados são testadas), no melhor dos casos você estará protegido por um período ainda menor do que quem testou positivo para a IgG (muito ainda se discute sobre o quão sensíveis os testes sorológicos atuais são, dada a urgência com que foram concebidos para atender ao combate da pandemia, mas isso não é o foco da discussão aqui).

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As observações apontadas pelo estudo holandês, caso sejam confirmadas para o SARS-CoV-2, põem (ainda mais) por terra a tática (genocida) de certos governos de certos países que esperam pela tão sonhada imunidade de rebanho: sem uma vacina, a imunidade de rebanho eventual via imunização natural não se confirmará. Para ocorrer um nível mínimo de imunidade de rebanho, ao menos dois terços da população teriam que estar imunizados ao mesmo tempo. Mesmo quando tivermos chegado a dois terços de infectados no país (quando isso acontecer, centenas de milhares de vidas terão sido perdidas a esse ponto), não teremos esses mesmos dois terços imunizados, porque os que se infectaram primeiro provavelmente já terão perdido a imunidade e estarão sujeitos a reinfecção. Pelo mesmo motivo, ficaria comprometida a adoção de “passaportes imunológicos”, que permitiria aos portadores que se curaram da COVID-19 afrouxar as medidas restritivas e prover aos governos estimativas de imunidade de rebanho da população. Isso tem repercussão, ainda, com relação às vacinas que estão sendo testadas contra o SARS-CoV-2: caso haja alguma vacina, ela provavelmente terá uma validade limitada e, provavelmente, deverá ser aplicada com certa regularidade, digamos, a cada ano, para que a proteção se mantenha.
A segunda questão que me vem à mente diz respeito àqueles indivíduos que sofreram de COVID-19 grave: eles também não poderiam respirar aliviados de terem sobrevivido, sabendo que, ao menos, eles estão livres de se reinfectarem? Aqui a resposta é um grande não sei, mas imagino que o panorama seja diferente. Como, nesses casos, a infecção se espalha para além da árvore respiratória superior, provocando uma lesão tecidual muito maior e durando mais tempo, minha hipótese é a de que essas pessoas que desenvolveram sintomas respiratórios mais graves e aquelas que tiveram que ser hospitalizadas devem experimentar uma imunidade mais duradoura contra o vírus. Embora essa hipótese seja alentadora para os sobreviventes da COVID-19 grave, isso teria pouco impacto na tão sonhada “imunidade de rebanho”, visto que esses doentes respondem por apenas cerca de 10% dos casos.
Por todos esses argumentos e antes que dados novos e mais definitivos sejam lançados, o que posso recomendar para aqueles que sofreram da doença e sobreviveram é: não baixem a guarda; continuem se cuidando. Evitem aglomerações, continuem usando máscara ao sair de casa e lavem as mãos. Ter pego COVID-19 não elimina o risco de futuras reinfecções. Ainda estamos tentando entender essa doença, e os avanços para a sua contenção e tratamento devem chegar em um futuro próximo, mas a melhor medida contra o vírus segue sendo evitar o contágio e, em relação ao pouco que entendemos sobre a dinâmica de reinfecção dos membros da família dos coronavírus, a possibilidade de reinfecção por SARS-CoV-2 deve ser seriamente considerada.

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Por Tiago Veit, professor adjunto do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da UFRGS
FONTE: Human coronavirus reinfection dynamics: lessons for SARS-CoV-2. Arthur WD Edridge, Joanna M Kaczorowska, Alexis CR Hoste, Margreet Bakker, Michelle Klein, Maarten F Jebbink, Amy Matser, Cormac Kinsella, Paloma Rueda, Maria Prins, Patricia
Sastre, Martin Deijs, Lia van der Hoek. medRxiv 2020.05.11.20086439; doi: https://doi.org/10.1101/2020.05.11.20086439

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Sem licença, sem usina de Tabajara

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Foi negada a licença para instalação da usina de Tabajara (400 MW), a ser implantada no rio Machado, na Cachoeira 2 de novembro, em Machadinho D’Oeste (RO). Fato que já começou a gerar polêmica e ataques ao Ibama. É a velha retórica de que o Ibama é contra o desenvolvimento, que não deixa fazer nada para o bem do povo, que é culpa dos ambientalistas, das ONGs e por aí vai, chega a ser cansativo a mesma ladainha de sempre.

Conheço bem a região, na adolescência morei lá. Isso me dá propriedade para expor minha nessa opinião. Tenho consciência que muitas pessoas certamente discordarão da minha opinião, porém tenho motivos e argumentos de sobra para defender os pontos de vista elencados no parecer que sustenta a decisão do Ibama.

Primeiro quero abordar uma questão importante a ser analisada sobre os inúmeros exemplos dos efeitos negativos desses grandes empreendimentos na Amazônia. Um sonho para alguns e pesadelo para muitos. Da maneira que são tocados, consolida-se a celebre frase: “Privatizar o lucro e socializar os prejuízos”. Essa afirmativa significa que os lucros de uma obra dessa magnitude são destinados para algumas poucas pessoas, as quais, no decorrer da construção concentram vultuosos lucros, em geral financiados com recursos de bancos públicos, fato que se repete durante a operação do empreendimento.

Socializar os prejuízos é quando o impacto social e ambiental é compartilhado pela sociedade, durante ou pós construção. Esses se relacionam ao aumento da criminalidade, crescimento populacional desenfreado, pressão sobre os sistemas de saúde e educação, principalmente onde a infraestrutura já é deficitária, e uma lista imensa que estenderia demais esse texto.

Para convencer a população loca, esta é levada a acreditar que haverá desenvolvimento, geração de riquezas, novas oportunidades, além de que serão pagas vultuosas indenizações, compensações e durante a geração da energia os royalties pelo uso da água para manutenção e melhoria dos serviços públicos. Porém o que na prática acontece é criação de bolsões de pobreza, subdesenvolvimento e concentração de renda e terras.

No caso da usina de Tabajara, o desenvolvimento do parecer foi realizado por seis analistas ambientais do Ibama e 2.100 horas de análise técnica dos estudos. Trata-se de um parecer extremamente fundamentado e que demonstra a fragilidade dos estudos apresentados.

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Foram apontadas inúmeras fragilidades, inconsistências, informalidade científica e ausência de informações, tanto no Estudo de Impacto Ambiental – EIA, como também nas complementações apresentadas pelo empreendimento. O que foi apresentado ao órgão licenciador não possibilita sustentar uma decisão favorável de viabilidade do empreendimento.
O parecer ressalta que é “indispensável a complementação do Estudo de Impacto Ambiental (EIA), com maior esforço de aquisição e análise de dados cientificamente válidos, a fim de esclarecer questões relacionadas à viabilidade ambiental, além de rigor na avaliação de impactos ambientais já solicitados pelo Ibama”.

Os estudos não foram capazes de apresentar dados suficientes da delimitação do reservatório. Essa não determinação exata da área de alagação, pode resultar em área de inundação maior e mais extensa que o proposto pelo EIA. Ou seja, áreas com ocupação humana consolidada e histórica podem ser afetada e expulsar compulsoriamente seus habitantes, além de se estender por áreas de floresta conservadas, matando animais, plantas e causando impactos maiores do que os previstos.

Os estudos relativos à fauna e flora da região de impacto, possuem inconsistências e solicitações não atendidas e/ou parcialmente atendidas. Nesse quesito não foi possível avaliar com clareza os dados sobre os impactos sobre a fauna. Nem as ameaças aos anfíbios e répteis com ocorrência específica para a região onde o empreendimento está planejado, e quais as ações de mitigação para evitar a extinção dessas espécies únicas.

Chama atenção o fato de não terem coletados dados atualizados de desembarque e comercialização de pescado. O parecer ressalta “o fato de não existir pontos de desembarque e/ou comercialização na área não justifica de forma conveniente a não obtenção de dados pesqueiros com o uso da metodologia solicitada, uma vez que existem adaptações aplicáveis ao caso concreto”. O estudo deixou de caracterizar e analisar a pesca de subsistência, identificando a sua importância para a composição da renda familiar, número de pessoas envolvidas e o grau de impacto do empreendimento nesta atividade, dados que são de alta relevância para propor as medidas de mitigação e compensação a esse impacto.

É certo que mais uma vez o Ibama, principal órgão de comando e controle ambiental do país, será mais uma vez alvo de inúmeras críticas e considerado o “vilão” e o responsável por “travar” o desenvolvimento. Porém, o que o órgão faz é de grande relevância e busca discutir as melhores alternativas para que os impactos sejam corretamente, ou o mais próximo disso possível, identificados, mensurados, mitigados e compensados.

Nossa sociedade precisa compreender a importância do licenciamento ambiental para sua própria qualidade de vida e repartição dos benefícios seja para o bem da coletividade, e não para gerar mais problemas. Deve-se amadurecer a ideia de que se busca o contínuo aperfeiçoamento técnico para essas importantes obras de infraestrutura. Modo que elas tenham maior eficiência e menos impactos ambientais e às pessoas. Homem e natureza coexistem, são inseparáveis, esse deve ser o entendimento que devemos ter.

Enquanto isso acompanhamos ataques do congresso nacional contra o licenciamento ambiental; Aumento do desmatamento na Amazônia, investigações da polícia federal no Ministério do Meio Ambiente, ataques de parlamentares do estado de Rondônia para reduzir unidades de conservação, inúmeras invasões para grilagem de áreas protegidas e terras indígenas e por aí vai.

Basta olhar para identificar de que lado estão aqueles que buscam seguir as leis do país, inclusive as normas ambientais, daqueles que querem destruir todo esse aparato de proteção e/ou simplificar mecanismos para ganhar no grito o poder de destruição de nossos ecossistemas naturais. Não se trata de impedir desenvolvimento coisa nenhuma, trata-se de fazer o que é certo para garantir o bem-estar coletivo.

REFERÊNCIA:

Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis. Coordenação de Licenciamento Ambiental de Hidrelétricas, Obras e Estruturas Fluviais. Parecer Técnico nº 65/2021-COHID/CGTEF/DILIC. Disponível em: https://sei.ibama.gov.br/documento_consulta_externa.php?id_acesso_externo=133596&id_documento=11012005&infra_hash=b0559b3144298721827ff3957883b0fc

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[1] Biólogo na Oscip Ecoporé, Mestre em Ciências Ambientais e Doutor em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente pela Unir, Vice-Presidente do Conselho Regional de Biologia da 6ª região. É colunista de sustentabilidade na Rádio CBN Amazônia em Porto Velho e Guajará-Mirim e pesquisador no Lahorta – Laboratório de Heurística de Sistemas Agroalimentares da Amazônia.

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