PORTO VELHO

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QUANDO É DEUS QUE NOS CONFIA A MISSÃO

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Ele, como invariavelmente acontecia numa vida de quase meio século (ao menos a partir dos tempos de faculdade), estava com muita pressa.

Já era por volta de 09 horas e precisava trabalhar. Embora estivesse em teletrabalho, algumas coisas precisavam ser encaminhadas ainda pela manhã.

Trazia consigo o conforto de já ter feito a sagrada atividade física e ainda ajudado a noiva, que tanto amava, em algumas pequenas atividades domésticas.

No cruzamento das Avenidas Guaporé e Calama algo lhe chamou a atenção. Algo que, infelizmente, está cada vez mais comum na Capital das Terras de Rondon.

Havia um Senhor, provavelmente venezuelano, com duas crianças bem pequenas, certamente com menos de cinco anos cada, muitos lindas a despeito de maltrapilhas, os três tentando se esconder do sol escaldante, que o Prefeito Hildon Chaves já disse que “existe um sol para cada cidadão em Porto Velho”.

Pegou algumas moedas e chamou o pedinte. Perguntou por que as crianças não estavam na escola. Ele disse, no seu idioma (num Portunhol, na verdade), que não era a sua culpa.

O sinal abriu e ele seguiu, mas foi com o coração apertado, não sem antes proferir uma sentença motivacional: tenha fé que vai melhorar!

Alguns quarteirões bastaram para dar um aperto ainda maior no peito; como se Deus estivesse mandando voltar.

Apesar da pressa para ir trabalhar em casa, não titubeou. Deu meia volta e foi conversar melhor com o estrangeiro.

Descobrira que as crianças não estavam estudando porque ele não conseguira vaga numa escola pública e, naturalmente, não podia pagar uma particular.

O venezuelano insistia que precisava mesmo era de um trabalho.

O homem, cujos méritos todos na vida foram conseguidos pelos livros e pela educação, disse que primeiro conseguiria uma escola para as crianças; depois tentaria ajudá-lo com o trabalho. Pegou o celular da esposa do pedinte, puxou a maior cédula que tinha na carteira e renovou o pedido para que tivesse fé que as coisas iriam melhorar.

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Infelizmente, essa situação – pedintes pelas ruas de Porto Velho – está proliferando mais que coelho no cio.

Hoje em dia é uma raridade não ter ao menos um num semáforo, mesmo distante do Centro (Avenida Mamoré, por exemplo); não raro com crianças, às vezes até bebês, a tiracolo.

Hoje eles estão até nos restaurantes e farmácias, ainda que travestidos de vendedores do que for. Para não ir muito longe, fiquemos só com a situação dos venezuelanos.

De acordo com dados oficiais da SEMASF – Secretaria Municipal de Assistência Social e Familiar, gentilmente compartilhados pelo Senhor Claudi, titular da pasta, são vinte e dois venezuelanos apenas no abrigo da Prefeitura.

Embora não se tenha feito nenhuma pesquisa, muito menos se saiba de qualquer uma, atreve-se a dizer que deveremos ter centenas de venezuelanos por aqui.

O mesmo que foi abordado, por exemplo, reside numa casa e, de certo, está longe dos registros oficiais, como o céu da Terra.

São tantos que já têm até uma associação, ainda segundo o prestativo secretário. Já passaram mais de trezentos por aqui, conforme ele mesmo disse.

Se a solidariedade e compaixão (leia-se AMOR) que existe no coração de todos nós não for acionada, essas pessoas continuarão a sofrer pela falta de duas coisas mais elementares que pode afligir o cidadão de bem e que estão expressas até na nossa Constituição Cidadã: A EDUCAÇÃO E O TRABALHO.

A maioria desses venezuelanos está com uma placa pedindo emprego! Vários deles são letrados (certa feita viu até um que era advogado!). Ontem mesmo, no cruzamento da Raimundo Cantuária com a Rio Madeira havia uma engenheira mecânica, se a memória não nos é falha, com uma criança como se fosse um marsupial (sim, um canguru!!!!!). O marido ficou na Venezuela. Ela nem tinha celular.

Será se as grandes empresas de Porto Velho não poderiam absorver essa força de trabalho?

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Repare-se que não se fala de filantropia, pelo menos não no sentido mais puro da palavra; mas, simplesmente, dar uma chance a quem precisa!

Alguns vão dizer que tem muito brasileiro sofrendo com falta de emprego também. Mas, é diferente! O venezuelano está num mundo que não é o dele. Tem o preconceito. Tem a barreira da língua.

Brasileiro, aqui em Porto Velho ao menos, só não trabalha se não quiser!

Outros, ainda mais ousados, dirão que muitos preferem voltar para as ruas porque ganhavam mais e era mais “fácil”.

Bem, poder-se-ia pensar em uma espécie de cadastro das pessoas. Sei lá!

Ninguém está vendo isso, não?

O fato é que, se quiserem um motivo para não ajudar, darei um milhão de razões!

É até covardia acreditar que o governo/prefeitura, por mais bem intencionados que estejam, vão conseguir resolver o caos de Porto Velho (para não dizer do Estado inteiro – sim, até em Cacoal já tem venezuelano) sozinhos.

O que a sociedade vai fazer?

O que cada um de nós vai fazer?

Quem está disposto a ajudar????

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Dedicado ao Jovem Gilberto Trindade, o “Beto”, que partira tão cedo, menos de meio século de vida; mas que, mesmo assim, foi o bastante para aproveitá-la ao máximo. Tudo o que poderia. Ele completaria, no próximo dia 27, apenas 46 anos…

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REGINALDO TRINDADE

Procurador da República. Pós-Graduado em Direito Constitucional. Membro da Academia Rondoniense de Letras. Idealizador da Caravana da Esperança, do Bazar da Solidariedade do Movimento FAROL DE ESPERANÇA – Resgatando VIDAS! (anteriormente denominado Dio: O resgate de uma vida). Doador do Médico sem Fronteiras e do Greenpeace. Colaborador da Associação Pestalozzi, da Casa Família Rosetta e da Associação Acolhedora Vencendo Gigantes (outrora Confrontando Gigantes)Ser humano abençoado.

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Foi no Bar do Canto

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O Movimento de Criação Cabeça de Negro nasceu no Bar do Canto

Recebemos a triste e lamentável notícia que o Bar do Canto fechou as portas. Agora só nos resta lembrar o que foi o Bar do Canto para nossa cidade de Porto Velho. Na verdade, o verdadeiro Bar do Canto já tinha fechado há muito tempo,  desde quando – no reparte da herança da tradicional família –  o tradicional ponto ficou para o irmão Ivo, ex-boêmio e cristão católico praticante que depois que parou de beber   passou a detestar bebida alcóolica  e muito mais conversa com bêbado, o que lhe levou encerrar as atividades de bar e continuou o comércio, que o pai Pedrinho deixou, no ramo da alimentação, diga-se de passagem, o Ivo é um excelente chef, inclusive, é bom registrar, a receita do famoso bola Moca do Bar do Canto, é do Ivo. Em tempo, o Bar do Canto fecha e ficamos sem o melhor bolo Moca da cidade.

Pois bem, não era mais o bar, mas o restaurante/lanchonete manteve a marca: Bar do Canto, e assim, manteve a tradição para a alegria dos porto-velhenses, que trazem na vida e na alma aquele local como um ponto de referência de encontros e bate-papos saudáveis e criativos. O Bar do Canto era uma referência.

Dentre as tantas referências do Bar do Canto vou relatar uma. No Bar do Canto nasceu o Movimento de Criação Cabeça de Negro que na década de 80 e nos primeiros anos da década de 90, do século XX, agitou a cidade de Porto Velho defendendo a igualdade racial e o respeito pela cultura ribeirinha cabocla que naquele momento sofria a invasão de levas de migrantes de todas as regiões do Brasil, cada uma trazendo a cultura da sua região. Defender a nossa era necessário.

Numa tarde quente de sábado, saio de casa, no Areal, e vou ao Bar do Canto, em busca de cerveja gelada e um bom papo. Na época, o gerente do Bar do Canto, era o poeta Mado. Vivíamos o momento da redemocratização no país e o poeta Mado tinha transformado o Bar do Canto num ponto de debates em prol da democracia. Todas as cabeças de esquerda e as malucas se encontravam no Bar do Canto para defender suas ideias  lutando para esmagar de vez a ditadura militar. Devido o local ser permanente frequentado pelos revolucionários e libertários, também era ponto, obvio, da polícia federal.

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O Bar do Canto encarnava todos os anseios daquela juventude e daquela gente que começava a sentir o cheiro e o gosto da democracia. Jornais independentes, livros antes censurados agora liberados, músicas antes proibidas agora liberadas, tudo isso rolava no Bar do Canto. E rolava muito mais porque a moçada era produtiva então logo se armava um projeto de show, um projeto de sarau, inclusive, lá foi pensado e realizado o livro “Papo de Taberna” – uma coletânea de poesias dos poetas frequentadores do Bar, inclusive, o saudoso, Flávio Carneiro.

Ali se reunia para debater praticamente os artistas da cidade de todas as áreas. Ilustrando as paredes do Bar do Canto cópias ampliadas coloridas de quadros com tema libertários como o do pintor francês   Eugène Delacroix “A liberdade guiando o povo”, ou o do pintor italiano Giuseppe Pellizza da Volpedo “O Quarto Estado”; as músicas que rolavam iam do experimentalismo de Arrigo Barnabé e Itamar Assunção até o último LP, na época, do Milton Nascimento – Encontros e Despedidas.

Retomando, numa tarde quente de sábado, saio e vou direto para Bar do Canto. Duas para três horas da tarde. O bar ainda não estava no auge. Poucas pessoas. Numa mesa do lado de fora, pela Av. Carlos Gomes, numa mesa sozinho estava o Jeshuá Jonhson, o Bubú. Recentemente naquela época tínhamos participado de um debate sobre a questão do negro no Brasil na Universidade Federal de Rondônia. Pensei:  – ótima companhia. E fui me sentar à mesa com o Bubu.

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Conversamos bastante sobre cultura principalmente quanto a luta do negro no Brasil por igualdade racial. Ele me falou de sua experiência no “Grupo Tez” no qual militou em Campo Grande, que era um braço do Movimento Negro Unificado – MNU, e lhe falei da minha experiência na militância no Movimento Alma Negra – MOAN em Manaus (AM), o qual fui um dos fundadores e primeiro presidente.

Conversa vai, conversa vem, falei para o Bubu que estava ensaiando um show, de músicas, no Sesc, com a chancela do movimento “Grito de Cantadores”, com o apoio do Júlio Iriarte que inclusive era quem estava fazendo os arranjos das músicas. O show era o “É preciso Gritar” que tinha sido elaborado em Manaus, com 14 músicas autorais;  e quando estava começando a ensaiar, terminei o curso de Comunicação Social e tive que voltar para Porto Velho.

Falei que os ensaios já estavam rolando no Sesc e convidei o Bubu para participar como produtor e diretor  no show. Ele topou e começou a ir participar dos ensaios no Sesc. O Bubu chegou com várias ideias e o show acabou saindo do Sesc e foi produzido e dirigido por nós mesmos com outras pessoas e artistas que se juntaram a nós naquele momento. O show que era “É preciso Gritar” passou a se chamar “Cabeça de Negro” e os textos e as músicas voltadas para a questão negra.  Desse show nasceu o Movimento de Criação Cabeça de Negro.

Foi no Bar do Canto que nasceu o “Cabeça de Negro” …

Foi no Bar do Canto que nasceu o livro de poesias “Papo de Taberna” …

Foi no Bar do Canto que conheci o teatrólogo professor Bedotti…

Foi no Bar do Canto que escutei “Tubarão Voadores” de Arrigo Barnabé…

Foi no Bar do Canto que dei de presente ao amigo poeta Mado o livro “Folhas de Relva” do Walt Whitman…

Foi no Bar do Canto…

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